
Chegou a um impasse a costura interpartidária para a composição do ministério de Dilma Rousseff. Na Granja do Torto, residência provisória de Dilma, a paralisia é atribuída à “gula” do PMDB.
Na residência oficial da presidência da Câmara, que abriga o vice Michel Temer, atribui-se o nó ao “apetite desmesurado” do PT. O cabo-de-guerra materializou-se num encontro encerrado por volta das três da madrugada desta sexta (3).
Temer reuniu a caciquia do PMDB. Numa demonstração de unidade, arrastou para a conversa, além de expoentes do partido na Câmara, os morubixabas da legenda no Senado: José Sarney e Renan Calheiros.
Convidado, o grão-petê Antônio Palocci, futuro chefe da Casa Civil e operador político de Dilma, participou de um pedaço da reunião. Recolheu as inquietações do PMDB e ouviu a reiteração de um “pedido”: a legenda quer cinco ministérios, não quatro.
Informou-se a Palocci que, desatendido, o PMDB não concordaria com o anúncio parcial de sua cota de ministros. Posição compartilhada por todos, de Temer a Sarney. Dilma programara para esta sexta o anúncio de dois nomes.
Junto com os integrantes da equipe palaciana –Palocci entre eles— a sucessora de Lula formalizaria, por meio de nota, um par de indicações do PMDB: Wagner Rossi, mantido na Agricultura; e Edison Lobão, recondozido às Minas e Energia.
Palocci tentou, até a última hora, convencer a cúpula do PMDB a autorizar a divulgação de Rossi e Lobão. Porém, como o impasse do quinto ministério não foi dissolvido, o partido de Temer bateu o pé.
Argumentou-se que o anúncio fatiado passaria a ideia de que as tratativas com o PMDB caminhavam bem. Uma impressão que, por falsa, o principal sócio da coalizão de Dilma não se dispõem a coonestar.
Puxa daqui, estica dali Dilma viu-se compelida a anunciar apenas os nomes de Palocci, Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência) e José Eduardo Cardozo (Justiça).
Para não borrifar gasolina na fogueira, retirou-se da lista o petista Paulo Bernardo, indicado para as Comunicações –uma das pastas que, subtraídas do PMDB, ajudam a compor a atmosfera de crise.
No encontro promovido por Temer, os pemedebês fizeram as contas. Concluíram que, considerando-se os nomes levados ao tabuleiro por Dilma, o PT acumula, por ora, 20 ministérios. Três além das 17 pastas que gerencia sob Lula.
O PMDB, em movimento inverso, murchou. Subtraíram-lhe duas pastas que, no balcão das transações em que transitam os cargos e as verbas, são vistas como jóias. Além de perder as Comunicações para o PT, viu a Integração Nacional migrar para o PSB do governador pernambucano Eduardo Campos.
Na conversa com Palocci, os pemedebês disseram que, assim como os petistas, também precisam acomodar suas correntes internas. Alegou-se que a unidade que garantirá a Dilma os votos do PMDB na Câmara e no Senado depende da obtenção de cinco pastas. Com quatro, remanesceriam arestas. Em verdade, o quinto ministério não servirá senão para acomodar Moreira Franco numa "cota pessoal" de Temer.
Declarou-se a Palocci que, diferentemente do PT, que avança sobre Dilma, o PMDB tem se mostrado "colaborativo". Já rebaixou suas exigências quanto à qualidade das pastas. Não faria sentido ceder também na quantidade.
De fato, em troca das Comunicações e da Integração, o PMDB chegou a cobrar Transportes e Cidades. Agora, rendido às evidências, aceita qualquer coisa –da Cultura, uma pasta de orçamento miúdo, ao Ministério das Micro e Pequenas Empresas, cuja criação é, por ora, mera promessa.
Em certos momentos, Palocci simulou compreensão. Porém, impassível, manteve sobre o balcão apenas as quatro pastas que Dilma o autorizou a negociar: além das já asseguradas Agricultura e Minas e Energia, a da Previdência e a do Turismo, antes prometida ao PSB. Mais tarde, acenou com a SAE (Secretaria de Assuntos Estratégicos) para Moreira.
O PMDB esticou a corda. Argumentou que, mantido o cenário, receberá um tratamento inferior ao dispensado ao PSB. A legenda de Eduardo Campos reivindica três ministérios, incluindo a preservação na Secretaria Nacional de Portos de Pedro Brito, um afilhado de Ciro Gomes.
Como se fosse pouco, argumentaram os grão-pemedebês, Dilma cogita abrir uma vaga na Esplanada para o senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE). Apenas para permitir que o presidente do PT, José Eduardo Dutra, suplente de Valadares, ganhe de presente uma cadeira de senador.
Mais: o PMDB queixou-se da ausência de critérios. Em benefício do PT, Dilma premia com ministérios até os derrotados nas eleições de 2010. Mencionam-se três casos: Aloyzio Mercadante e Fernando Pimentel, convidados respectivamente para Ciência e Tecnologia e Desenvolvimento Industrial; e Idelli Salvatti, cogitada para a Pesca.
Não é só: o PMDB lamuriou-se da falta de método. Por cima dos partidos, petistas do Nordeste –à frente Jaques Wagner, da Bahia; e Marcelo Déda, de Sergipe— formaram uma “cooperativa de governadores” para indicar ministros.
Num momento da reunião em que Palocci não estava presente, o deputado Henrique Eduardo Alves, líder do PMDB na Câmara, disse que, se o excesso de compreensão do PMDB não resultar em contrapartida, vai mudar seu procedimento:
“O negócio é ser fisiológico mesmo. Tenho o meu mandato. Se o bom comportamento não resolve, vou partir para a porrada”. A semana terminou como começou, com o PMDB em chamas. A negociação prossegue no final de semana.
Se mantiver a oferta de quatro ministérios (mais a mixuruca SAE), Dilma vai inaugurar nas suas relações com o PMDB uma política que um participante da reunião promovida por Temer batizou de “cá de espero”. Funciona assim: “Ela agora, forte como está, nomeia quem bem entender. Mas o PMDB vai esperá-la na curva”.
Folha
0 comentários:
Postar um comentário